PIONEIROS DA BORRACHA MURIAEENSE

Visitamos plantios com mais de 30 anos

REPORTAGEM ESPECIAL

Recentemente nossa reportagem visitou plantações de seringueiras em Muriaé, que estão em plena produção, eram plantios novos. Nesta segunda reportagem especial sobre a “BORRACHA MURIAEENSE”, visitamos os plantios pioneiros no município, datados da primeira metade da década de 80, e como a produção de borracha começa em média sete anos após o plantio, estamos falando de árvores de mais de 30 anos e que ainda estão produzindo um bom látex. Vistamos duas fazendas, uma em São Domingos (Belisário), do falecido Paulo Carvalho, ex-prefeito e deputado estadual; e a outra no distrito de Boa Família, a antiga Mundial, de Sérgio Luiz Alli. A famosa seringueira que mudou o Norte do país no início do Séc. XX é também carregada de história.

Em Muriaé, chegou através do PROBOR II – Programa da Borracha – do Governo Federal – e o primeiro fazendeiro que se interessou pela novidade, foi o ex-prefeito Paulo Carvalho (já falecido), um visionário, que junto à meia dúzia de produtores rurais, aderiu à nova cultura. O filho de Paulo Carvalho, o atual diretor regional da EMATER-MG, em Muriaé, Paulo Alexandre, disse que na ocasião, o PROBOR II tinha como objetivo incentivar o plantio de seringueira no Sudeste e na Bahia, pois a produção estava muito centralizada no Norte do Brasil com a seringueira nativa. Com o consumo crescente, o Brasil dependia muito da borracha extrativista do Norte, e já importava da Indonésia, também produtora.

Paulo Carvalho, visionário e pioneiro no plantio
Na antiga Fazenda Mundial, pioneira, hoje com Sérgio Luiz Alli

“Em 83/84, meu pai decidiu plantar seringueira, e a fazenda escolhida foi a Caramones, no distrito de São Domingos, propriedade que foi de Amaral de Oliveira, de Belisário. Junto com ele, financiados pelo PROBOR II, estavam produtores como o professor Abnar (hoje sítio da Josélia Varella), Nelson Schacnick, Fazenda Mundial, Antônio Balbino (de Belisário) e os plantios de Leopoldina, Cataguases, também eram da mesma época, com mudas produzidas pelo viveiro do IEF de Leopoldina.

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Em 30 hectares, meu pai plantou 15 mil árvores de quatro clones diferentes, pois não sabia qual iria se adaptar, pois era um plantio experimental, acompanhando pelo engenheiro florestal da Emater-MG, Furlani. A produção prevista era para oito anos depois, hoje melhorou muito este prazo. Quando começaram a produzir, o Brasil passou a importar muito da Indonésia e o preço da borracha nacional caiu muito, e ficamos mais dois anos sem abrir a produção, sem sangrar as árvores. Começamos a extrair somente uma década depois.

A mão de obra da seringueira não é fácil, na época construímos casas, para as pessoas que iriam trabalhar no seringal, e treinamos a mão de obra, fizeram cursos em fazendas que tinham começado primeiro a produção, como a Fazenda Mundial.  Temos hoje apenas um seringueiro, o trabalho é feito em parceria. Era comum trazer da Bahia os trabalhadores, mas eles não ficavam muito tempo, por isso o ideal é treinar gente de nossa terra.

Com relação ao mercado atual, o consumo da borracha caiu muito em todo o mundo com a Pandemia. A borracha acompanha o aço, e que também sofreu queda no mercado, com a fabricação de veículos por exemplo. As empresas compradoras de nossa borracha estão espaçando o período, se buscavam uma vez por mês, passou a ser 60 dias ou mais, pois a Cooperativa não consegue comercializar toda a borracha. Produzimos 2.000 Kg/mês, mas já chegamos a 4.500 Kg/mês.

Na selva tem árvores distanciadas centenárias que precisa muitos homens para abraçar o tronco, tem vida indefinida; mas aqui no cultivo comercial, ainda mais o nosso com 30 anos, praticamente já atingiu sua vida útil, mas ainda produz, é além para os clones da época. A sangria é feita sempre na madrugada e no fim da tarde, quando não há sol quente. Meu pai sempre foi muito visionário, tudo ele estava na frente, idealizada e sonhava com aquilo lá na frente” disse Paulo Alexandre.

Outro seringal que visitamos, com árvores da mesma idade, mais de 30 anos, foi o da antiga Fazenda Mundial, nas proximidades do distrito de Boa Família, do produtor rural, Sérgio Luiz Alli. Lá iniciaram com 25 mil árvores na época e agora tem mais 17 mil. Serginho, como é conhecido, é engenheiro florestal especializado em seringueira, com trabalhos importantes em Manaus-AM. Viveu o auge da borracha muriaeense e relata que tiveram grandes conquistas. Atualmente o produto é direcionado para uma Cooperativa de Seringalistas, sediada no estado do Espírito Santo. Destacou que os maiores produtores da borracha hoje no Brasil, estão em São Paulo, Goiás, Bahia… e no mundo a Tailândia, Indonésia, que teriam levado o cultivo da seringueira brasileira pra lá.

“Paulo Carvalho e um grupo teve interesse, então veio Embrapa e Epamig (empresas de pesquisa), bem como uma das maiores autoridades do PROBOR em São Paulo, Jaime Vasques, o qual trouxe a tecnologia pra cá, pois a região de Muriaé era vista como “zona de escape” em MG, onde o desfolhamento da seringueira é no período de seca definido, a doença que ataca a seringueira, vem da chuva, da umidade relativa do ar, aqui isso é mais ameno. A variedade nossa veio de Belterra, Belém do Pará. Foram seis variedades, pois nunca se planta uma só. Mas atualmente nos preocupamos com nosso plantio antigo com ataques de duas doenças. As novas resistem, mas lançaram um controle biológico, vamos ver como vai atuar.

Na ocasião eu morava em Manaus-AM, no interior da selva, quando a Família Mundial comprou a fazenda do Jacy Caetano, em Boa Família, para plantar seringueira. Meu cunhado aderiu ao plantio, fui chamado para trabalhar exclusivamente com elas, seis variedades, 25 mil árvores, elas estão produzindo, mas estamos com estes ataques da doença. No começou produz muito, mas quando vai trocando os cortes, vai reduzindo. Quanto à mão de obra, o ideal é mesmo treinar pessoas de nossa região. Seringueira tem muita técnica.

Quanto aos pioneiros, lembro-me de Paulo Carvalho (um visionário), o Moisés e Nelson Schacnik, o professor Abnar, a Mundial Agropecuária, o Antônio Balbino (de Belisário). Tenho orgulho de dizer que devo muito a seringueira, e que devemos a Paulo Carvalho, pelo interesse nesta cultura. Agora já estamos pensando no cacau” disse o produtor rural.

Lembrando que o país viveu o auge da borracha nas primeiras décadas do século XX e a história é grande, com destaque para o estado do Amazonas e as cidades de Fordlândia-PA e Belterra-PA, cidades essas criadas pelo milionário americano, Henry Ford, mas o projeto ousado durou só até 1945.

FAZENDA CARAMONES, SÃO DOMINGOS – MURIAÉ-MG

Paulo de Oliveira Carvalho, visionário, pioneiro no plantio

ANTIGA FAZENDA MUNDIAL – BOA FAMÍLIA – MURIAÉ-MG

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4 Comments

  1. Sergio Alli, fazenda mundial, Boa Família, é o pioneiro da borracha em nossa região, no início dos anos 80 ele começou seu plantio, cheguei trabalhar p ele no desbravamento do terreno e na furacão de covas. No início aconselharam o Sérgio a queimar as árvores e fazer carvão, pois negocia nunca daria certo, no entanto ele sempre acreditou e venceu no ramo do látex. Parabéns.

  2. Parabéns aos pioneiros da cultura da borracha em nossa região!
    Pessoas que acreditaram no potencial e na possibilidade da nossa região ser um diferencial neste importante segmento da economia nacional.
    Parabéns também ao Silvan Alves, que sempre tem nos apresentado reportagem de grande interesse !

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